Berlim (Dia 7): CAOS CALMO não seria o novo filme de Nanni Moretti. Foi dirigido por Antonello Grimaldi e adapta um romance de Sandro Varonesi, mas poderia ser. No entanto, os holofotes de Berlim não foram do ator e diretor italiano… Nem do japonês Yoji Yamada, que teve o azar de ver sua sessão de imprensa de KABEI (adaptação de uma antiga história de Kurosawa) coincidir com outra, muito mais disputada, que lotou a ponto de muita gente sentar no chão do Cinestar 3.

Trata-se de mais um momento punk-rock em Berlim, e tudo por causa de uma pergunta: Madonna é capaz de fazer um filme? Sim, ela é. Embora não signifique que seja bom… FILTH AND WISDOM, precede a arrogância de uma diva que acha que sabe fazer de tudo e a quem ninguém ousou dizer que seria uma péssima idéia. (Provavelmente, seu marido, o diretor Guy Ritchie, até a encorajou!).

Mas surpreendentemente, FILTH AND WISDOM não é uma catástrofe: É uma fita anônima e inconseqüente, com direito a tudo de produção barata, como filmagem digital, atores desconhecidos e roteiro “zen” básico sobre a necessidade de equilíbrio nas nossas vidas entre luz e escuridão, céu e inferno. Ou seja, o fetichismo S&M pode ser o caminho da sabedoria!

Para desespero de muitos, há filmes piores. O que salva FILTH AND WISDOM da irrelevância é a presença carismática do novo afilhado e cúmplice da cantora: Eugene Hutz, líder da banda Gogol Bordello, interpretando um personagem que por acaso é cantor e líder de uma banda chamada Gogol Bordello.

O filme gira à sua volta e sua performance de mafioso-gigolô recém fugido da Ucrânia carrega o filme nos ombros, mas não é suficiente para levar FILTH AND WISDOM além de uma mera curiosidade que nessa gelada Quarta-Feira tirou os holofotes de CAOS CALMO, o tal filme que não é de Nanni Moretti, mas poderia ser…

A fita de Antonello Grimaldi é uma espécie de “variação” sobre a matriz do luto e da dor dO QUARTO DO FILHO. Poderia se chamar O BANCO DO PAI, porque é num banco de jardim que Moretti passa o filme, como um executivo de televisão, cuja mulher morreu inesperadamente. Ele internaliza o vazio passando os dias sentado no tal banco de jardim. É uma espécie de “Moretti light”, igualmente inteligente no modo como trabalha com sutileza a convenção do melodrama, mas um pouco convencional, mais enfabulado e menos inspirado - talvez seja injusto fazer a comparação, mas a presença do ator/diretor no papel principal (bem como sua colaboração no roteiro) a torna inevitável. E a verdade é que o filme de Antonello Grimaldi não desmerece os pergaminhos de seu ator, atento e generoso, impecável na placidez do seu homem que reage à maior dor da sua vida recolhendo-se para dentro de sua concha. É um filme que merece um olhar mais atento (e vai tê-lo) - mas teve o azar de ser mostrado no dia de Madonna.

Autor: Helton

Postado em Quinta-feira, Fevereiro 14th, 2008 as 5:55 pm.
Categorias: Festivais.

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